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Quarta-feira, Maio 14, 2008
não há duas sem três
resta ainda dizer que houve bons pensamentos e bons desejos e uma ou outra impossibilidade fodida e muita gente em que pensei e entre as que conheço e as que não, não perdi oportunidade para cumprir um pedido e suspirar para dentro: The National
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saturnine
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01:25 |
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you came on like a punch in the heart #3
de tantas formas, depois das pequenas mortes, se fazem às unhas à terra e se regressa ao lado arejado do solo. de tantas formas, depois de nos matar, nos volta a resgatar uma cidade. um certo limbo, um certo aperto no coração, uma certa indecisão entre a angústia e o nirvana, não são maus de todo. é bom reconstruir lugares. Lisboa, ganhaste-me outra vez. ![]() © Senhor Manel The National | Daughters of the Soho Riots I was in a train under a river when I remembered what What I wanted to tell you, man What I wanted to tell you, man I got two sets of headphones, I miss you like hell Won't you come here and stay with me Why don't you come here and stay with me
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saturnine
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00:04 |
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Terça-feira, Maio 13, 2008
Break my arms around the one I love
![]() The National | 11 de Maio | Lisboa © ilustre Senhor Manel, ao lado de quem tive o prazer de me sentar (na primeira fila, ao centro) não há muitas palavras para isto. epifania. amor. derrota total. pequenas mortes. os rostos que vi, os que tanto queria ver, os que - qual Bartleby de meia-tigela - preferia não. a sensação de que somos vagamente weirdos em mútuo reconhecimento. eu pelo menos sou uma grande weirdo e doem-me permanentemente as coisas que trago por dentro. doem um bocadinho mais quando soa a "Daughters of the Soho Riots". doem particularmente se deixo ecoar-me na cabeça I wanna hurry home to you put on a slow, dumb show for you and crack you up and I'm closing on 29.
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00:26 |
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Quinta-feira, Maio 08, 2008
Este post tem dedicatória
![]() The Go-Betweens | Spring Rain
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saturnine
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00:16 |
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Quinta-feira, Abril 24, 2008
you came on like a punch in the heart #2
o Nick Cave data de temos tão remotos na minha vida musical que a memória das primeiras audições evoca uma época em que ainda lia a colecção Triângulo Jota. decorria o ano de 1992 da graça do Senhor, o Henry's Dream acabadinho de sair. bem sei que cada coisa é uma coisa e que cada maravilha é sempre a única maravilha e que o amor é sempre uma coisa do princípio e do fim do mundo. mas ainda assim não é hipérbole nem falta à verdade se constatar que não me lembro de outra coisa assim. uma epifania completa: you came on like a punch in the heart. foram precisos 16 anos (mais de metade da minha vida) para ver como era aquele rock, aquela fúria, assim de perto. e agora, percorrer assim os caminhos tortuosos, ramificados, intrincados, a que conduzem estas músicas, é como um súbito alívio de agarrado. o corpo expande-se em interna descompressão. coladas a essas músicas, há toda a parafernália de recordações da entrada abrupta nos vintes, as aulas de desenho, as festas de fim de semestre, a evidência do verão à chegada de Junho, os jardins ociosos das Belas Artes, o sol, as noites, os perfumes, os rostos que beijei, meu deus, os rostos que desejei beijar, muitas tardes passadas no quarto pequeno, com pouca luz, a imaginar encontros, a fantasiar futuros, a carpir as mágoas habituais, sem saber muito bem que ordem havia na desordem completa do mundo, mas sabendo que havia uma música que era um farol e que dizia estoicamente the mercy seat is waiting/ and I think my head is burning/ and in a way I'm yearning/ to be done with all this measuring of truth./ an eye for an eye/ a tooth for a tooth/ and anyway I told the truth/ and I'm not afraid to die. muitas tardes que se transformaram em noites. noites que se transformaram em pessoas. pessoas que se transformaram em paixões. paixões que se transformaram naquilo que me lembro daquilo que sou. how fucking romantic. acho que chegou a minha vez. se eu fosse um vídeo, seria este:
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saturnine
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00:34 |
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Quarta-feira, Abril 23, 2008
you came on like a punch in the heart*
![]() eu não me contentaria com nada menos do que o melhor. não me contentaria com menos do que ter a certeza que aquele olhão azul estava mesmo ali a azular. estava tão perto que os perdigotos do senhor me acertavam. morri ali pelo menos uma ou duas vezes. mas a mensagem estava por todo o lado: dig yourself. e regressei. de coração abalroado. não há escala para isto, não é tão bom quanto melhor que muito pior ainda que. é só uma evidência absolutamente necessária: um grande amor à espera de ser cumprido. não havia tempo que bastasse para tudo o que havia para ser dito. mas houve verdade suficiente para que os anos se condensassem de súbito em breves instantes. os rostos que eu percorri, meu dEUS, as memórias. uma vida inteira ali dentro, uma vida inteira carregada de gente, de histórias dentro de músicas dentro de histórias. não era preciso muito para que fosse um concerto bestial: o essencial eu levo sempre comigo. e eu, que sou assumidamente uma "Henry's Dream" / "Let love in" kind of girl e que sempre achei que era quase imperdoável a irremediabilidade da passagem do tempo, dei por mim a gostar deste homem-grinderman. é-se o que se é, o tempo todo não nos pertence. ficamos com o pouco que nos calha. e ainda assim, por vezes, é tão mais do que aquilo que deveríamos esperar. * Jesus of The Moon
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saturnine
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03:41 |
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Sexta-feira, Abril 18, 2008
on being the woman who could not live with her faulty heart
foi a lebre que me serviu o prato. o mundo passou a fazer subitamente muito mais sentido desde o dia em que Margaret Atwood passou a constar do meu livro de citações internas de emergência. assumi um epíteto. ![]() e assim, eu, que não consigo viver com o meu coração defeituoso, constato: It wasn't your crippled rhythm I could not forgive, or your dark red skinless head of a vulture. but the things you hid: five words and my lost gold ring, the fine blue cup you said was broken that stack of faces, gray and folded, you claimed we'd both forgotten, the other hearts you ate, and all that discarded time you hid from me, saying it never happened. There was that, and the way you would not be captured, sly featherless bird, fat raptor singing your raucous punctured song with your talons and your greedy eye lurking high in the molten sunset sky behind my left cloth breast to pounce on strangers. How many times have I told you: The civilized world is a zoo, not a jungle, stay in your cage. And then the shouts of blood, the rage as you threw yourself against my ribs. As for me, I would have strangled you gladly with both hands, squeezed you closed, also your yelps of joy. Life goes more smoothly without a heart, without that shiftless emblem, that flyblown lion, magpie, cannibal eagle, scorpion with its metallic tricks of hate, that vulgar magic, that organ the size and color of a scalded rat, that singed phoenix. But you've shoved me this far, old pump, and we're hooked together like conspirators, which we are, and just as distrustful. We know that, barring accidents, one of us will finally betray the other; when that happens, it's me for the urn, you for the jar. Until then, it's an uneasy truce, and honor between criminals. Margaret Atwood in *Two-Headed Poems
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23:54 |
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Quarta-feira, Abril 16, 2008
morto amado nunca mais pára de morrer *
aquilo que nos acontece, nunca aconteceu, nunca mais pára de acontecer. Abril dura para sempre. não nos separamos do tempo que passa. uma ferida passada é um nenúfar no peito. diariamente desabrocha as suas pétalas de estilete. See myself something different Though I try to talk sense to myself But I just won't listen Won't you go away Turned yourself in You're no good at confession Before the image that you burned me in Tries to teach you a lesson What you did to me made me see myself somethin' awful A voice once stentorian is now again meek and muffled It took me such a long time to get back up the first time you did it I spent all I had to get it back, and now it seems I've been outbidded My peace and quiet was stolen from me When I was looking with calm affection You were searching out my imperfections What wasted unconditional love On somebody Who doesn't believe in the stuff You came upon me like a hypnic jerk When I was just about settled And when it counts you recoil With a cryptic word and leave a love belittled Oh what a cold and common old way to go I was feeding on the need for you to know me Devastated at the rate you fell below me What wasted unconditional love On somebody Who doesn't believe in the stuff Oh, well Fiona Apple
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01:52 |
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Segunda-feira, Abril 14, 2008
insensatez já não mora aqui
![]() pois é. a insensatez já não mora ali. mudamos as nossas saturninas traquitanas todas para aqui. ou estamos em mudanças, pronto. mas estamos a chegar lá. venham ver-nos, please. we have cookies. ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() © lbs productions
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02:55 |
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Sexta-feira, Abril 11, 2008
April was the cruelest month #3
(ou o díptico poético-terrorista)
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21:37 |
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Quarta-feira, Abril 02, 2008
April was the cruelest month #2
![]() © lbs | sintra | 2008 era o Rui Pires Cabral que dizia, nas minhas mãos, numa música antológica (& onze cidades), num café da rua de Ceuta, num Abril passado: "sem deixar eco qualquer coisa ruía." desde então, alguns dias antes, um sopro mais aflito, uma respiração mais dificultada, um vago torpor só muito subtilmente pressentido. começa a doer-me Abril lentamente por todo o corpo. até hoje, nunca mais parei de ressentir-me do eco dessa qualquer coisa que ruía sem eco num Abril passado. se olho para dentro, constato: tenho uma nódoa negra no coração. para o teu tempo, comerei o pó dos dólmens nos cantos da tua boca, em julho entre o arvoredo. Mais valia que não me tivesses salvo nessa altura, o coração não me basta e ainda se ressente. Rui Pires Cabral | Boo Boo's Gone Mambo ![]() © lbs | sintra | 2008
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00:24 |
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Terça-feira, Abril 01, 2008
Good ol’ rythm’n’blues or the ex-factor on some casual late night thinking
I wear black on the inside
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23:57 |
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Sábado, Março 29, 2008
Da selecção natural
há coisas que não resistem à passagem do tempo, ao excesso de silêncio. i'm being cut to shreads * * Radiohead
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18:58 |
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So far, so good
22 de Abril de 2008: Nick Cave, Coliseu do Porto 11 de Maio de 2008: The National, Aula Magna 28 de Maio de 2008: Cat Power, Coliseu do Porto os apêndices: não ter que pagar bolha para ver, sem saber de antemão, A Hack And A Hacksaw. ter o bilhete mais perfeito possível para The National (primeira fila das doutorais, ao centro). afigurar-se a possiblidade de Leonard Cohen e Bob Dylan lá mais para o verão, sabe-se lá que mais boas surpresas. qualquer dia tenho os sonhos todos realizados e estarei um passo mais próxima de me tornar uma pessoa verdadeiramente insuportável. respect.
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18:10 |
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Sexta-feira, Março 28, 2008
Meu pequeno animal anti-social (crónica de um amor profundo)
eu esperei 10 anos pelos Portishead. nesses 10 anos, eu frequentei os jardins das Belas-Artes, apaixonei-me por pessoas, desapaixonei-me das pessoas, atravessei o Atlântico, morri uma ou duas vezes, mudei de casa, mudei de emprego, acabei um curso, acabei relações, fiz-me saturnina, fiz-me citrina, passei a gostar de desgraçadinhos à guitarra como o Townes Van Zandt, fui a festivais, vi por dentro o inverno transmontano, estive cativa da serra e cativa do inferno e depois regressei. 10 anos à espera deste exacto momento: as luzes baixam, acendem-se os focos azuis, soam os primeiros acordes soturnos de uma melodia (re)conhecida. eu tremo, o coração dispara, as lágrimas afloram. é tudo perfeito e é tal e qual como eu imaginei durante longos 10 anos: "Roads". 10 anos de memórias, afectos, caem-me em cima em desmoronamento simultâneo.
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00:10 |
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Quinta-feira, Março 27, 2008
Inside job
agora percebo por que os bilhetes para os concertos andam a esgotar em prazos de duas semanas, quase ainda antes de haver publicitação oficial dos mesmos. há toda uma Máfia a controlar a cena. metade é gente da Fnac. a outra metade é o Fórum Sons.
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23:53 |
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Segunda-feira, Março 24, 2008
April was the cruelest month #1
![]() This is just to say "hello" And to let you know I think of you from time to time I know I never really knew you But somehow I miss you And wish that you'd stayed in my life Making contact gets harder As the silence grows longer And isn't it only me Who'd like us to see each other? How I would hate to be a bother The way we left it was you'd ring I'm under no illusion As to what I meant to you But you made an impression And sometimes I still feel the bruise Sometimes I still feel the bruise Now and then I stumble on What I've misplaced but never lost An ache I first felt long ago Though you've appeared and disappeared Throughout these past few years I'd be surprised if you now showed Making contact gets harder As the silence grows longer And why would you think of me When you were not the one in love? When you were not the dreamer? When you were just the dream? The Mountain Goats | Sometimes I still feel the bruise «Se for consultar o psicanalista, confio em Deus que ele permita que se sente também ao nosso lado um dermatologista, pois sinto que tenho cicatrizes nas mãos por tocar em certas pessoas.» J.D. Salinger
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13:36 |
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Ora portanto, isto também é um belo manifesto
![]() sim, so need your love, so fuck you all é uma frase do Robbie Williams. e é brilhante. e é de uma canção deliciosamente irónica. e eu que veja aqui alguém a contrariar-me.
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saturnine
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00:35 |
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Sábado, Março 22, 2008
Poema dum Funcionário Cansado
dispersou-me os amigos tenho o coração confundido e a rua é estreita estreita em cada passo as casas engolem-nos sumimo-nos estou num quarto só num quarto só com os sonhos trocados com toda a vida às avessas a arder num quarto só Sou um funcionário apagado um funcionário triste a minha alma não acompanha a minha mão Débito e Crédito Débito e Crédito a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente e debitou-me na minha conta de empregado Sou um funcionário cansado dum dia exemplar Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço Soletro velhas palavras generosas Flor rapariga amigo menino irmão beijo namorada mãe estrela música São as palavras cruzadas do meu sonho palavras soterradas na prisão da minha vida isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só António Ramos Rosa
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saturnine
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20:09 |
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Sexta-feira, Março 21, 2008
já se torna habitual (ritual) que o equinócio - dia de sol, de árvores, de poesia - me leve a duas reincidências: um disco do Bill Evans* e uma fotografia do Harry Zernike. ![]() © Harry Zernike este ano, com o coração ao pé da boca e a noite a abrir fundos poços nos meus olhos, celebrei a manhã com o José Tolentino de Mendonça: A casa onde às vezes regresso é tão distante da que deixei pela manhã no mundo a água tomou o lugar de tudo reúno baldes, estes vasos guardados mas chove sem parar há muitos anos Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai uma viagem se deu entre as mãos e o furor uma viagem se deu: a noite abate-se fechada sobre o corpo Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração. * * * Quatro tiros no coração Certas manhãs chegava esmagado pela luz longo, frívolo, ofensivo qualquer gesto aludia a uma espécie de tremor a tristeza daqueles que não pertecem a lugar algum vivia tudo num instante: a solidão, os rancores as alegrias dos outros o silêncio do outono nunca o amor tocara o seu corpo com a intensidade do medo tornou-se parte de um rito nem perto, nem longe da palavra justa ele só pedia «não me digam nada». * * * A noite abre meus olhos Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado na constelação onde os tremoceiros estendem rondas de aço e charcos no seu extremo azulado Ferrugens cintilam no mundo, atravessei a corrente unicamente às escuras construí minha casa na duração de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes A aurora para a qual todos se voltam leva meu barco de porta entreaberta o amor é uma noite a que se chega só. à noite, acrescento: A estrada branca Atravessei contigo a minuciosa tarde deste-me a tua mão, a vida parecia difícil de estabelecer acima do muro alto folhas tremiam ao invisível peso mais forte Podia morrer por uma só dessas coisas que trazemos sem que possam ser ditas: astros cruzam-se numa velocidade que apavora inamovíveis glaciarespor fim se deslocam e na única forma que tem de acompanhar-te o meu coração bate José Tolentino de Mendonça
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saturnine
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22:01 |
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